7 de julho de 2009

Estación en curva

O jornal onde eu trabalho é um dos mais influentes da Espanha, mas não tem nenhum carro para levar os repórteres às pautas.

Explico.

O sistema de transporte público de Madrid é tão eficiente que desencoraja o uso dos carros. Há duas estações de metrô perto do jornal. E o metrô de Madrid leva a todos os cantos da cidade. Eu disse todos os cantos da cidade.

São quase 300 estações espalhadas pela região metropolitana. O Rio de Janeiro, uma cidade maior que Madrid, tem menos de 40 estações.

O metrô leva ao aeroporto de Barajas (são duas estações lá dentro), aos terminais rodoviários, às estações de trem, ao estádio do Real Madrid, ao Parque do Retiro, à Gran Vía, ao Museu do Prado e aonde mais você quiser.

Está pensando em estações escuras como as de Roma? Linhas confusas como as de Paris? Ou vagões emporcalhados como os de Nova York? Nada a ver.

As estações são bem iluminadas e os trens estão sempre limpinhos. Ninguém fica andando para lá e para cá como barata tonta porque as estações estão muito bem sinalizadas. Cada linha tem uma cor e um número.

A passagem do metrô de Madrid é uma das mais baratas da Europa. Um euro.

Além disso, os trens passam a cada três ou cinco minutos. O serviço funciona até a uma e meia da manhã. E um simpático casal de dubladores (essa é a profissão original deles) de voz empostada anuncia a próxima estación.

Assim como em Londres, eles alertam para o espaço entre o vagão e a plataforma. Em vez do clássico "Mind the gap", a espanhola do metrô --muito mais dramática-- exclama:

"Atención: estación en curva. Al salir, tengan cuidado para no introducir el pie entre coche y andén".

Exagero. O metrô de Madrid é tão bom que o espaço entre o vagão e a plataforma (o tal buraco onde você pode desatentamente enfiar o pé) não tem mais que uns 15 centímetros. Ninguém em sã consciência cai ali dentro.



Ricardo põe legenda na foto e no vídeo:
Na foto, o nome que deu origem a este blog. O vídeo mostra a chegada à mítica Diego de León, que me deixa quase na porta de casa. Preste atenção ao diálogo entre o locutor e a locutora ao anunciar a próxima estación e a correspondencia con.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Se você é um imigrante ilegal, é melhor evitar estações movimentadas, como a Avenida de América. Na saída costumam estar policiais ávidos por clandestinos desavisados.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Este é o mapa que se distribui gratuitamente em todas as estações do metrô. Dou uma tapa (não um tapa) a quem achar a idolatrada Diego de León nesse mundo ferroviário.
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5 de julho de 2009

Cuidado, filme dublado / Atención, película doblada

Que tal ir ao cinema ver o último blockbuster americano? Cuidado, porque é quase certo que o filme vai estar dublado.

Dublado? Mas é um drama que pode ganhar o Oscar, não um desenho da Disney para crianças...

Não importa. O filme vai estar dublado.

Se quiser ver no idioma original, com legendas, vai ter que procurar um cinema alternativo, circuito cult, gente moderna.

Os espanhóis simplesmente não estão acostumados às legendas. Não gostam de ver a história num idioma que não entendem e ao mesmo tempo ler as falas traduzidas para o espanhol. Não gostam, não conseguem ou não querem.

Nos anos 40, a ditadura do General Francisco Franco baixou uma lei que tornava a dublagem dos filmes estrangeiros obrigatória. Era para conservar a pureza do espanhol? Para nada. Era uma forma bastante eficaz de controlar o conteúdo que chegava do exterior.

A ditadura franquista não gostava de nada que remetesse à democracia e à liberdade ou que ameaçasse a moral católica e os bons costumes.

O exemplo mais clássico (ou trágico ou cômico) é "Mogambo", de 1953, dirigido por John Ford e estrelado por Clark Gable e Grace Kelly. No filme que o mundo inteiro viu, a história gira em torno de uma mulher que trai o marido num safári africano. No filme que só a Espanha viu, as falas transformaram marido e mulher em... irmãos! Assim, nunca houve adultério na versão espanhola. Nada de maus exemplos neste país.

Os nomes de todos os filmes também são traduzidos. Isso, porém, vem de uma tradição mais antiga. Aqui, a rainha Elizabeth da Inglaterra é conhecida como Isabel. O príncipe Charles, Carlos. E os dois filhos dele, os príncipes William e Harry, Guillermo e Enrique.

O pensador alemão Karl Marx é Carlos Marx. A cidade belga de Antuérpia se chama Amberes. Anne Frank, a do diário, virou Ana Frank. E a banda U2, atenção, ganhou o nome de u dos.

Ricardo põe legenda na foto:
Até o Wolverine foi espanholizado.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Como têm tudo mastigadinho na língua materna, os espanhóis não se preocupam em aprender outros idiomas. Aqui, ao contrário do Brasil, não se encontra uma escola de inglês em cada esquina.

Ricardo dá o caminho das pedras:
¿Quién quiere ser millonario? foi o primeiro filme que vi na Espanha. Na entrada do cinema não havia nenhum aviso de que estava dublado. Foi estranho ouvir um menininho indiano gritando coño.
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1 de julho de 2009

Sol de rachar a cabeça / Cómo hace calor en esta ciudad

Numa das inesquecíveis lições de espanhol no CCAA, uma das personagens exclama: ¡Cómo hace frío en esta ciudad!

Em Madrid, nesta época do ano, é o contrário. ¡Cómo hace calor en esta ciudad!

Na capital espanhola ou faz frio de congelar as bochechas ou calor de derreter os neurônios. Quando o inverno inclemente vai embora, é imediatamente substituído pelo verão inclemente.

Dias agradáveis, sol morno, brisa fresca, cheiro de orvalho... nem pensar. Não há término medio.

Pela manhã faz calor. À tarde faz calor. De noite faz calor. Na madrugada faz calor.

Andar na rua é um inferno. O sol pesado joga todos os seus raios UV na cabeça dos transeuntes. E eles (os raios, não os transeuntes) queimam.

Para piorar, Madrid está bem no centro da Península Ibérica, longe do Mar Mediterrâneo, do Mar Cantábrico e do Oceano Atlântico. Umidade, só na pia do banheiro e da cozinha. Os poucos ventos que sopram aqui são secos. E quentes. A sensação térmica é de deserto. Uma verdadeira estufa.

Os madrilenhos dizem que os dias de verão são bochornosos. Bochorno é o aire caliente y molesto que se levanta en el estío.

As senhorinhas, outrora com casacos de pele cheirando a mofo, nesta época do ano passeiam pelas ruas com sombrinhas protegendo a cabeça e leques refrescando o rosto.

Ricardo põe legenda na foto:
Essa foto foi tirada hoje --acredite-- às dez horas da noite.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Dormir com as janelas abertas ajuda. Um pouco.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Como faz São Paulo, Madrid também improvisa suas praias.
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29 de junho de 2009

Espanha, uma torre de Babel / España, una torre de Babel

Os sotaques podem mudar de uma região para outra, mas em toda a minha Minas Gerais natal se fala um único idioma: o mineirês, uai. A Espanha, ao contrário, é uma verdadeira torre de Babel. E é menor que MG.

O espanhol, idioma oficial do país, vive com quatro línguas co-oficiales. Na Espanha também se falam o catalão, o galego, o basco e o aranês.

Nunca mencionaram isso no seu cursinho de espanhol, no es cierto? No meu tampoco.

Antes de ser o país que é hoje, a Espanha estava dividida entre vários territórios. Quem os unificou --depois de expulsar os muçulmanos da Península Ibérica-- foram Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os "reis católicos", no final do século 15.

As línguas sobreviveram.

O catalão se fala na região de Barcelona. É uma mistura de espanhol, italiano, francês e --por que não?-- português. Muito perto de você, um dos slogans do McDonald's, virou Molt aprop teu na Catalunha. A propaganda do Aquário da capital catalã diz que Si no has estat aquí, no has estat a Barcelona.

Nas ilhas Baleares (onde ficam Palma de Mallorca e Ibiza) e em Valência (a terra da famosa paella) falam-se variantes próprias do catalão.

O galego é a língua que se fala na região de Santiago de Compostela, na fronteira com Portugal. É o verdadeiro portunhol.

Um anúncio feito hoje no site do governo da Galicia: O secretario xeral para o Deporte, Xosé Lete, mantivo unha xuntanza co delegado territorial en Ourense para perfilar as necesidades que existen na provincia de instalacións deportivas. Soa familiar, não?

O basco é a língua da região de Bilbao. Como não tem origem no latim, não se parece com nenhum idioma que eu conheço. Um dos jornais do País Basco dá hoje a seguinte notícia: Gaur egin diote autopsia Michael Jackson zenaren gorpuari heriotza zehazki zerk eragin zion argitzeko. Entende?

Quanto ao aranês, bueno... nunca ouvi falar.

As quatro línguas sobreviveram apesar de o General Franco ter tentado exterminá-las. O ditador temia que os idiomas locais de alguma maneira incentivassem o separatismo nessas regiões.

Não quer dizer que em Barcelona só se fale català ou que em Bilbao apenas euskara. Praticamente todo mundo na Espanha tem o espanhol como língua materna ou pelo menos como segunda língua.

Nas escolas de todo o país, o espanhol é a língua oficial. Algumas comunidades autônomas (como os Estados brasileiros), porém, estão tentando rebaixar o espanhol ensinado nos colégios ao status de língua estrangeira e, portanto, com menos carga horária. A polêmica corre solta.

Nos textos oficiais, evita-se o uso da palavra español para referir-se à língua falada pela maioria dos espanhóis. Isso porque o basco, o galego, o catalão e o aranês também são línguas espanholas. Nos textos do governo, usa-se castellano.

O castellano tem esse nome porque é a língua que se falava no reino da católica Isabel de Castela.

Ricardo põe legenda na foto:
No supermercado Eroski, os produtos são etiquetados nas grandes línguas da Espanha. O queijo ralado está escrito, na ordem, em espanhol, basco, catalão e galego. O nome Eroski, como se deduz, tem origem basca.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Se você sabe italiano ou francês, consegue ler em catalão. Agora entender quando eles falam, isso já é outra coisa...

Ricardo dá o caminho das pedras:
Os espanhóis levam com bom humor a diversidade linguística do país. Neste vídeo, o aeromoço impõe o castelhano ao basco, à catalã e ao galego que viajam no avião.
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22 de junho de 2009

É avião, mas parece ônibus / Peor que autobús

Na Europa proliferam as companhias aéreas de baixo custo, as "low cost". As mais conhecidas na Espanha são Ryanair, Vueling e EasyJet. Nada a ver com o padrão Gol. Barato é barato mesmo.

Um exemplo que vi outro dia: um voo de Madrid ao Porto, ida e volta, por 20 euros. No geral, os preços para as principais cidades europeias ficam entre 40 e 70 euros.

É assim que os alemães passam o fim de semana em Palma de Mallorca. Os ingleses, em Malta. E os franceses, em Sevilha.

Em compensação, que não se espere nada das empresas. Absolutamente nada! Milhas? Ha! Travesseirinho? Ha ha! Um suco de laranja com gelo, por favor? Três vezes ha!

Quer despachar mala? Vai pagar. Quer escolher assento? Vai pagar. Quer comer um sanduichinho? Vai pagar. Quer ler o jornal do dia? Vai pagar. Quer um assento que recline? Nem pagando.

Se não quiser pagar taxa, o passageiro só deve levar uma mala. E que não seja grande nem pesada. E ai de quem se fizer de desentendido...

As empresas têm uma caixinha metálica no portão de embarque para verificar se a bagagem de mão não foge das exigências "low cost". Se a mala entrar no quadradinho, beleza. Mas se não entrar, não embarca mesmo.

É comum ver na fila de embarque passageiros desesperados amassando a roupa para deixar a mochila menor. Ou então vestindo casaco tirado da mala quando no aeroporto o calor beira os 40 graus. Já vi gente transferindo roupa para a bagagem do amigo. E ouvi gaiato dizendo que levaria meia na mão (tipo luva) e cueca na cabeça (tipo gorro). Tudo para burlar a "low cost".

O passageiro "low cost", em razão disso tudo, acaba se tornando um ser meio selvagem. Como não há lugar marcado no avião, as pessoas precisam correr para pegar os melhores assentos. Se em algum momento um passageiro resolve começar a fila para o embarque, mesmo que não haja nem sequer um funcionário da empresa no guichê, um monte de gente corre atrás. Em poucos segundos, se vê uma fila quilométrica na frente do portão. E as pessoas podem passar mais de meia hora ali, de pé, fila de banco.

Não espere aeromoças simpáticas. Nem com cabelos bem cortados. Afinal, para as passagens serem tão baratas, o salário delas deve ser diretamente proporcional. Metade dos passageiros ainda está acomodando suas humildes mochilas nos "compartimentos superiores" e elas já estão advertindo no alto-falante que, se não se sentarem imediatamente, o voo vai atrasar. E gritam mesmo: "Sit down!".

Não duvido que o avião levante voo enquanto os passageiros ainda estão de pé no corredor procurando lugar para guardar a mala.

As compras e as informações são pela internet. Afinal, ter loja implica gastos extras e passagens mais caras. Se quiser mudar um voo, o preço da troca vai ser mais alto que a passagem. Se quiser tirar alguma dúvida pelo telefone, a conversa também pode sair mais cara que o bilhete. O minuto para entrar em contato com a central telefônica da Ryanair, por exemplo, custa mais de R$ 3.

O check-in também é pela internet. Esqueceu de imprimir em casa o cartão de embarque? Então é bom que tenha R$ 60 no bolso para fazer o check-in no aeroporto. E não adianta gritar com a funcionária da "low cost", porque ela grita mais alto que você. Ameaças do tipo "me dá teu nome que eu vou te denunciar ao Procon" não intimidam.

E mandar uma queixa à empresa também é complicado. Eles dizem que não têm e-mail. E que as reclamações só se fazem por fax. Consegue ver uma lata de lixo bem na frente do aparelho de fax da companhia aérea? Eu também.

É fácil viajar barato. Mas pode custar caro.

Ricardo põe legenda na foto:
Nas entrelinhas da caixa metálica da Ryanair que mede o tamnho da mala, consigo ler o seguinte: Se não está satisfeito, passageiro, por que veio?

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Recentemente se noticiou aqui que uma "low cost" quer cobrar até pelo uso do banheiro do avião. Dá medo.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Estas são imagens reais de um voo "low cost" na Europa. E este é o site da empresa em questão.
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16 de junho de 2009

Sexo, drogas & bicicletas

Em Amsterdam, existe um canal de água para cada rua. E existem várias pontes sobre cada canal. Os barcos vêm e vão.

As bicicletas estão em todos os lados, rodando ou estacionadas. Os carros não têm vez e os bondes tocam uma sineta antes de arrancar.

Algumas ruas estão sempre cheias de gente. Outras estão sempre vazias. De vez em quando um carro cai num canal. De vez em sempre uma bicicleta cai num canal.

Os sex shops aparecem em cada esquina. Os coffee shops também. Mas --atenção!-- os coffee shops são diferentes das cafeterias. Em todos os lados se vê fumaça de erva.

Nas vitrines da luz vermelha, as moças olham nos olhos do possível cliente e, atrizes canastronas, suspiram "uau!".

Os restaurantes de carne argentina estão na moda. Os croquetes são vendidos em máquinas que funcionam com moedas.

Cada praça (ou plein) tem sua estátua. Os museus são para todos os gostos, de Van Gogh a Anne Frank e de história holandesa a história do sexo.

Dos velhos moinhos de vento, restam dois. O mercado de tulipas surge no coração da cidade para confirmar outro velho clichê.

E a estação central de trem dá as boas vindas a gente do mundo inteiro.

Não pode haver no mundo cidade mais encantadora que Amsterdam.

Ricardo põe legenda na foto:
Um dos dois moinhos que ainda existem dentro de Amsterdam.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Para os portugueses, a cidade se chama Amsterdão.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Veja aqui o que se aconselha ao alugar uma bicicleta em Amsterdam.
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11 de junho de 2009

Às 8 da tarde / A las 8 de la tarde

O relógio tem outro ritmo na Espanha.

Ontem acudí a uma entrevista coletiva na sede da Comunidade de Madrid. Estava marcada para as 12h, mas só começou às 13h. Um jornalista revoltado comentou que, se tivesse sabido desse atraso, teria dormido uma hora a mais...

Quer dizer que para estar num evento ao meio-dia é preciso cair da cama? Para muitos espanhóis, sim...

Me lembro que o corretor que nos alugou o apartamento arregalou os olhos quando sugeri que assinássemos o contrato às 8h. Minha academia só abre às 9h. No jornal onde eu trabalho, ninguém sai para almoçar antes das 14h30.

Os espanhóis dormem tarde. E também acordam tarde. Por isso, o quadrante do relógio aqui está dividido de outra maneira.

A manhã vai das 9h às 15h, mais ou menos. E a tarde, das 15h às 21h.

Aqui se diz, por exemplo, "oito da tarde" para as 20h. E "duas da manhã" para as 14h.

Caso a assessora de imprensa diga que vai ligar para você na primeira hora da manhã, não se preocupe. Não vai ser tão cedo como parece...

Ricardo põe legenda na foto:
Um relógio na Gran Vía, a avenida mais famosa de Madrid.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Depois de um tempo na Espanha, dormir antes das 2h fica quase impossível.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Madrid marca a mesma hora de Roma e Estocolmo, mas está uma hora à frente de Lisboa. Veja aqui.
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2 de junho de 2009

Atenção, turistas! / ¡A turistear!

Nestes quatro meses de turismo intensivo, aprendi algumas lições valiosas para aproveitar mais e ter menos dor de cabeça nas viagens. Compartilho com ustedes os mandamentos do turisteo:

1. Conheça os pontos turísticos da cidade visitada antes de chegar lá. Como? Compre um guia. Traçar uma rota dos lugares e das atrações a visitar poupa muito, mas muito tempo.

2. Antes de reservar um hotel, leia resenhas de hóspedes. As fotos colocadas na internet pelo próprio estabelecimento podem ser capciosas. Um bom site de avaliações é o Trip Advisor.

3. Verifique se a cidade tem visitas guiadas grátis. O grupo New Europe oferece isso em umas dez cidades europeis. E faça esse passeio logo no primeiro dia. Conhecendo de cara as principais atrações, nos dias seguintes você poderá voltar com calma às que tiver considerado mais interessantes.

4. Procure saber se a cidade tem passes de transporte especiais para turistas. Esses passes valem por certo número de dias e dão direito a viagens ilimitadas. Normalmente valem para metrô, trem, bonde e ônibus. São bem econômicos.

5. Leve uma mochila durante os passeios.

6. Dentro dessa mochila carregue água e algo de comer (barra de cereal ou chocolate, por exemplo). Haverá lugares onde simplesmente sem comida. Imagine-se com fome e preso numa fila de três horas para entrar nos museus do Vaticano...

7. Guarde um casaco leve dentro da mochila. E se a temperatura cair repentinamente à noite?

8. Verifique a previsão do tempo para saber se a temperatura cairá repentinamente à noite.

9. Leve também escova de dente e filtro solar na mesma mochila. Fazem falta.

10. Ponha nos pés um tênis confortável. Nada de All Star, sapato ou chinelo. Um calçado inadequado no primeiro dia pode arruinar uma viagem inteira.

11. Ande com o passaporte e a carteira no bolsa da frente da calça. Os batedores de carteira se proliferam melhor em lugares cheios de turistas.

12. Leve o telefone do cartão de crédito anotado num lugar seguro. Se o cartão for roubado (toc toc toc), ele deve ser bloqueado imediatamente.

13. Gostou daquela lembrancinha? Então compre na hora. Se deixar para depois, poderá ser tarde demais. Ou você não terá tempo para voltar à loja ou não saberá refazer o caminho até lá.

14. Carregue a bateria da máquina fotográfica todas as noites, mesmo que ela ainda não esteja fraca. Se você não fizer isso, é batata que a máquina vai ficar sem energia bem no meio do dia.

15. Ligue a cobrar para seus entes queridos no Brasil. Para isso, anote antes o número da Embratel nos diferentes países.

Ricardo põe legenda na foto:
Um guia muito louco mostra o monumento às prostitutas do Distrito da Luz Vermelha de Amsterdam. Passeio guiado grátis!

Ricardo conta ao pé do ouvido:
A maioria das cidades da Europa tem escritorios de atendimento ao turista. Se você ainda não tem um guia, esses são os melhores lugares para obter um bom mapa. Grátis!

Ricardo dá o caminho das pedras:
Quer comprar as passagens aéreas mais baratas? Elas estão em sites como Atrápalo, Rumbo e eDreams. Quase grátis!
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1 de junho de 2009

Amigos de banheiro / Amigos de aseo

Não é gentileza, é bizarrice.

Quando entram no banheiro, os espanhóis cumprimentam todo mundo que está ali dentro. É um tal de hola para lá, qué tal para cá...

Você até leva susto, achando que conhece o interlocutor. O esforço para tentar lembrar o nome é inútil, porque você realmente não o conhece, nunca trocou meia dúzia de palavras com ele na vida.

Digo que não é gentileza porque, uma vez fora do banheiro, essas mesmas pessoas voltam a se fechar em seus mundos. Dizer hola fora do banheiro? Nem pensar! Que fique claro: banheiro é lugar de socialização, corredor não.

É assim no trabalho, é assim na academia.

E na hora de ir embora do banheiro é a mesmíssima coisa. Hasta luego para todos vocês, meus amigos, que ficam. Que medo!

Ricardo põe legenda na foto:
A indicação dos aseos do jornal El Mundo.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Banheiro em espanhol pode ser aseo, servicio, baño, cuarto de baño, wáter, retrete, lavado...

Ricardo dá o caminho das pedras:
Veja algumas placas de banheiros encontradas nesta temporada.
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30 de maio de 2009

Deve ser horrível morar numa cidade assim / Los cacos

Aqui não tem bala perdida. Assassinato é coisa rara (e, quando há, é notícia para página inteira no jornal). Nunca se lê sobre estupro. E tampouco se ouve falar de assalto a mão armada. Nem sequestro? Não, nem sequestro.

O problema de delinquência número um é o carterismo. Madrid e todas as grandes cidades europeias estão cheias de batedores de carteira, mais conhecidos como carteristas, cacos ou descuideros.

Eles agem nas estações e nos vagões do metrô, nos ônibus e nas paradas, nas rodoviárias, nos bares, nas saídas dos estádios de futebol, nos pontos turísticos e onde mais houver excesso de gente.

São profissionais. Numa esbarrada rápida com a vítima, levam carteira, passaporte e o que mais estiver dando sopa no bolso.

As táticas são várias. O carterista pergunta para a vítima como se chega a tal lugar. O alvo, distraído, começa a explicar. Então aparece outro ladrão por trás, abre a bolsa ou a mochila e se apodera do que pode.

Outra forma de distrair é simular uma briga no metrô cheio. Enquanto dois cúmplices começam a gritar, o pobre coitado presta atenção ao bate-boca e, quando se dá conta, já é tarde. O que tinha de valor já foi levado.

O caco mais ousado xinga a própria vítima. Ela obviamente revida os insultos. E, com a cabeça quente, nem se dá conta de que outro delinquente veio por trás e levou a carteira.

Esses descuideros (que se aproveitam das carteiras descuidadas) passam o dia no metrô. Os policiais até já conhecem muitos de rosto.

Para serem presos, porém, precisam estar de posse da carteira surrupiada no momento em que são revistados pela polícia. E mais: o valor roubado deve superar os 400 euros. Sendo superior, há um delito. Os carteristas então são presos e processados. Mas, sendo inferior a 400 euros, há uma falta. Os cacos são apenas fichados, pagam uma multa qualquer e acabam liberados em seguida. A impunidade ajuda.

A cada dia, 60 pessoas registram boletim de ocorrência por roubo de carteira só no metrô de Madrid.

Como diz o Ancelmo Gois, deve ser horrível viver numa cidade violenta assim.

Ricardo põe legenda na foto:
Logo na saída da estação de trem de Amsterdam, uma placa avisa aos turistas que os batedores de carteira estão em todos os lados.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Carteira e passaporte, só no bolso da frente da calça. Nunca no bolso de trás nem no bolso lateral. Mochilas e bolsas também devem ir na frente. Todo cuidado é pouco.

Ricardo dá o caminho das pedras:
O problema é tão grave que a polícia de Madrid criou uma brigada exclusivamente para combater esses deliquentes.
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