13 de agosto de 2009

Nós, os "cariocas" / Nosotros, los "cariocas"

Os espanhóis continuam barrando brasileiros no aeroporto internacional de Madrid, mas, mesmo assim, ainda são fãs incondicionais do nosso povo e do nosso país.

Se antes, ao ser apresentados a um brasileiro, naturalmente reagiam falando de futebol e Pelé, agora os comentários são invariavelmente sobre o nosso presidente da República. “¿Y Lula?” foi a pergunta que mais ouvi nos seis meses em que estive na Espanha.

A essa pergunta genérica e quase automática, os espanhóis esperam um discurso emocionado sobre a preocupação do governo petista com os pobres. É uma expectativa que se vê nos olhos. Os europeus não disfarçam a fascinação que sentem pelo operário e sindicalista que se tornou o chefe do maior país latino-americano.

O jornal El País, por exemplo, tem mais que interesse pelo Brasil. Chega a ser um verdadeiro transtorno obsessivo-compulsivo. A cada semana saem três ou quatro notícias sobre o nosso país. Qualquer autoridade brasileira de visita pela Espanha ganha uma entrevista de página inteira, mesmo que não tenha novidade nenhuma a dizer. Se tem a ver com o Brasil, é notícia automaticamente.

Quando o Comitê Olímpico Internacional esteve em Madrid para avaliar se a cidade tem condições para sediar as Olimpíadas de 2016, ouvi de muita gente que a candidata que mais tem chances de vencer é o Rio. Mas e a violência? A corrupção? A falta de infra-estrutura? Para os espanhóis, nenhuma deficiência, por pior que seja, consegue superar a alegria dos brasileiros. É o que basta para levar uma Olimpíada para o Brasil.

Isso, claro, tem muito a ver com os estereótipos plantados pelo Brasil no exterior sobre si mesmo. Já vi espanhol perplexo ao ouvir que pessoalmente no me gusta el fútbol, não sei bailar la samba e tampoco levo jeito para luchar la capoeira.

Os espanhóis conhecem a caipirinha, mas muitos acham que carioca é sinônimo de brasileño. Não se assuste se ler em algum lugar que Lula é el presidente carioca.

Os espanhóis garantem que amam a música brasileira, mas muitos não sabem enumerar ninguém além de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Os espanhóis dizem que morrem de vontade de conhecer Salvador de Bahía, mas muitos não sabem que existe um local chamado São Paulo, que por acaso vem a ser a maior cidade do país.

Os espanhóis sabem que garota significa chica (por causa da música Chica de Ipanema), mas muitos acham que a língua que se fala no Brasil é o brasileño. E olha que Portugal está bem ali do lado...

Ricardo põe legenda na foto:
O brasileiríssimo Pelé é garoto-propaganda do Santander nessa publicidade vista numa estação de metrô de Madrid. Os clientes que transferem a conta-salário para o banco podem ganhar um dia com “o rei”.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Sempre ávido pelo Brasil, o jornal El País entrevistou o nosso ministro da Justiça. Tenho sérias dúvidas se um jornal brasileiro daria uma página inteira para o ministro da Justiça da Espanha (que lá se chama ministro do Interior)... O ministro Tarso Genro falou que o apoio do presidente Lula é o handicap da ministra Dilma Rousseff nas próximas eleições para a Presidência. O jornalista espanhol não sabia que no Brasil, sabe-se lá o motivo, handicap é uma coisa positiva. No resto do mundo, como é o correto, handicap é algo negativo. Resultado: o El País cometeu uma gafe internacional ao publicar que Lula vai atrapalhar Dilma, e não ajudá-la.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Veja a reportagem furada do El País e a subsequente queixa do ministro Tarso Genro.
...

11 de agosto de 2009

Para alegria das empreiteiras / El caos de la ciudad

Que linda é Madrid! Mas não deixem de me avisar quando encontrarem o tesouro...

A ironia veio do ator Danny De Vito quando esteve em Madrid alguns anos atrás para o lançamento de um filme. Na época, a cidade estava de cabeça para baixo, tomada por centenas de obras públicas.

A situação hoje não é muito diferente. Quem caminha por Madrid se sente em plena trincheira, no meio da linha de tiro. É quase impossível andar pela cidade sem deparar com tapumes no meio do caminho.

O governo está construindo terminais de ônibus e estacionamentos subterrâneos, aumentando calçadas, transformando ruas para carros em ruas para pedestres, ampliando as linhas do metrô... São cerca de 250 obras em curso.

O quebra-quebra ocorre em locais nevrálgicos da cidade, como as calles de Serrano e de Fuencarral, as plazas de Colón, Castilla e Callao, o paseo de los Recoletos e a Puerta del Sol.

Peguemos como exemplo o quilômetro zero da cidade. Além dos tapumes, dos tratores, dos pedreiros e de montes de areia, a Puerta del Sol está cheia de policiais patrulhando a área, gente distribuindo folhetos de compro ouro, carteristas atentos aos turistas que tiram fotos distraídos, madrilenhos esperando amigos embaixo da famosa estátua do urso, funcionários se dirigindo à sede do governo da Comunidade de Madrid... Passar, hoje, pela Puerta del Sol é como competir numa corrida com obstáculos.

Apesar da poeira, do barulho e do trânsito (relativamente) caótico, os madrilenhos não reclamam. E a imprensa também não. Têm a consciência de que são obras que vão deixar a cidade melhor.

Ricardo põe legenda na foto:
As obras praticamente esconderam a famosa estatua ecuestre de Carlos III na Puerta del Sol. Nessa praça, bem no coração de Madrid, as vias para os pedestres estão sendo aumentadas, saídas do metrô estão sendo reformadas e uma estação de trens acaba de ser construída.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
"Já encontramos o tesouro", disse na semana passada o prefeito Alberto Ruiz-Gallardón, referindo-se à brincadeira citada no começo deste texto. "São os madrilenhos, sem dúvida nenhuma." Político é político.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Neste mapa animado do site Elmundo.es, pode-se ver em vídeo quais são as principais obras em curso na capital espanhola.
...

7 de agosto de 2009

As velhas pesetas / Las viejas pesetas

Os espanhóis gostam de dizer que os portugueses são nostálgicos, vivem presos à sua história de glória, são avessos à modernidade... Pode até ser verdade, mas esses mesmos espanhóis que apontam o dedo para os vizinhos também têm lá uma pontinha de apego ao passado.

O euro é a moeda corrente da Espanha desde 2002, mas até hoje tem muito espanhol que se refere a preços e valores utilizando a peseta, a velha moeda do país.

Mas não é como no Brasil, onde quem diz "10.000 réis", "10 contos" ou "10 cruzeiros" obviamente se refere a 10 reais. Na Espanha, ao contrário, não é uma mera questão de vocabulário. Se uma pessoa diz "160.000 pesetas", por exemplo, ela está se referindo à quantia de 900 euros.

Em 2002, quando a antiga moeda deixou de valer, 166 pesetas equivaliam a 1 euro.

Ainda hoje, sete anos depois da morte das pesetas, o Banco de España recebe pessoas querendo trocar suas notas velhas por euros. Aquelas mesmas 166 pesetas ainda equivalem a 1 euro.

No mês de junho, os espanhóis trocaram 332,7 milhões de pesetas por 2 milhões de euros. O Banco de España estima que ainda haja 1,7 bilhão de pesetas no país.

Conclusão: os espanhóis guardam dinheiro debaixo do colchão! E depois dizem que quem vive no passado são os pobres dos portugueses...

Ricardo põe legenda na foto:
Se colocar cartaz, terá de pagar uma multa de 500 pesetas! A mensagem foi vista num muro de Sevilha.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Minha última compra no supermercado em Madrid ficou em 15,40 euros. Para facilitar a vida dos nostálgicos, a nota fiscal trouxe o total também en pesetas: 2.562. A propósito, a peseta foi criada em 1869. Antes dela, a moeda da Espanha era o escudo espanhol.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Quer saber quanto valem as suas pesetas? Faça as contas nesta calculadora.
...

6 de agosto de 2009

A gangue da marcha à ré / Los aluniceros

Pelo menos uma vez por semana os jornais de Madrid noticiam algum caso de alunizaje na cidade.

É o crime em que os ladrões usam um carro para invadir uma loja e levar mercadorias de valor. De ré, eles aceleram o veículo contra a vitrine, estilhaçam o vidro e entram com facilidade no estabelecimento. Vão de ré porque dessa forma sofrem menos impacto.

Em São Paulo, esse tipo de quadrilha é conhecido como "gangue da marcha à ré".

Segundo as estatísticas da polícia, foram registrados 116 casos de alunizaje ao longo deste ano na região metropolitana de Madrid. Ou seja, um roubo a cada dois dias.

Os alvos preferenciais dos ladrões são as boutiques de grife e as joalherias. Eles atacam principalmente de madrugada e no meio da tarde, quando as lojas estão fechadas para a famosa siesta.

Na tentativa de se proteger, os lojistas têm pedido que orelhões e árvores sejam colocados bem na frente de suas vitrines, bloqueando assim o caminho dos carros dos bandidos.

Vejamos a coisa pelo lado positivo. Os aluniceros e os carteristas (batedores de carteira) são os deliquentes que mais perturbam a paz de Madrid. Melhor isso que sequestro e assalto a mão armada, ¿no es cierto?

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Alunizaje significa "aterrissagem na Lua" (da mesma forma que aterrizaje é "aterrissagem na Terra"). O crime ganhou esse apelido porque o carro dos assaltantes entra na loja em questão de ré, da mesma forma que os foguetes espaciais aterrissam na Lua.

Ricardo põe legenda na foto:
Numa manhã da semana passada, quando ia para o jornal, deparei com essa cena. O banco que fica bem atrás do meu prédio foi invadido por uma BMW vermelha. Os aluniceros conseguiram fugir com algum dinheiro. Até comecei a apurar a história, mas no local já estava um colega do meu jornal...

Ricardo dá o caminho das pedras:
Aqui está o vídeo sobre o assalto ao banco. Note que, nesse caso, o carro não foi de ré.
...

29 de julho de 2009

Shop till you drop

Estamos na época ideal para comprar até nao poder mais. Julho é o mês das famosas rebajas na Espanha e no resto da Europa.

Sao promoçoes que deixam ainda mais loucos os compradores compulsivos. Produtos --principalmente roupas-- que antes eram apenas "bons" e "bonitos" tornam-se também irresistivelmente "baratos". Os descontos chegam a 75%.

Tênis de marca custam 35 euros. Casacos pesados e calças jeans, 15 euros. Camisas de manga comprida saem por 5. Camisetas, até por 3 euros.

Mesmo com a famigerada crise, as lojas de Madrid ficam cheias e nas ruas só se vê gente com sacolas na mao.

Existe uma lei nacional que regula as rebajas na Espanha. E ela manda que os descontos se apliquem sobre os preços reais: nao há aquele velho golpe de jogar o preço lá em cima antes de aplicar o desconto. E que as peças nao tenham defeito: a liquidaçao nao é truque para se livrar das peças encalhadas.

Além de julho, há rebajas também em fevereiro. Segundo a lei, a primeira temporada de promoçoes deve ocorrer al principio de año e a outra, en torno al período estival de vacaciones.

Em fevereiro, ficam baratas as roupas de frio. Em julho, as de verao. Prepare o cartao de crédito.

Ricardo põe legenda na foto:
A vitrine da loja de departamento El Corte Inglés anuncia suas rebajas. O garoto-propaganda é o cantor brega venezuelano Carlos Baute.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Os preços sao tao baixos na Espanha que sao altas as chances de você acabar comprando, por impulso, coisas de que nao precisa ou que nunca vai usar no Brasil.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Ir a lojas de departamento como Zara e H&M vira passeio turístico para a tarde inteira. Coincidência ou nao, há sempre uma Zara ao lado de uma H&M. Ou vice-versa.
...

22 de julho de 2009

O espanhol das arábias / El castellano de las arabias

Quem cruza o estreito de Gibraltar e chega ao norte da África entra em outro mundo. Falo especificamente de Marrakech, em Marrocos.

As mulheres se cobrem de véus dos pés à cabeça, os homens deixam a barba crescer apenas embaixo da mandíbula, os camelos estão em todos os lados, os microfones das mesquitas chamam à oração várias vezes ao longo do dia, comprar qualquer coisa significa pechinchar até o último centavo/saliva/resto de energia, atravessar a rua é praticamente um ato suicida, o couscous está obrigatoriamente em todos os restaurantes, os encantadores de najas tocam suas flautas no meio da praça...

Mas no tradicional mercado de Marrakech, o mesmo onde se pechincha até o último centavo/saliva/resto de energia, os vendedores falam espanhol. E muitíssimo bem.

Mas em Marrocos não se fala árabe? Sim. E também não se fala francês? Oui, oui.

É que Marrakech está sempre tomada por turistas espanhóis. A famosa cidade marroquina fica a menos de duas horas de voo de Madrid. Os voos são baratos, uns 100 euros ida e volta.

Como hábeis comerciantes, os árabes usam todas as técnicas para fazer o cliente comprar um lenço colorido, uma sandália de couro, uma prato de cerâmica, um chaveiro de camelo, uma camiseta com as cores da bandeira marroquina, uma tatuagem de henna, um copo de suco de laranja feito na hora...

Falar espanhol é uma dessas técnicas.

A turista que aparenta ser espanhola é carinhosamente chamada pelos vendedores de guapa ou María José. E se ela esclarece em castelhano que não é bem espanhola, o vendedor não desiste. Com um sorriso no rosto, insiste: ¿México? ¿Guadalajara? ¿Gripe del cerdo?

Ricardo põe legenda na foto:
A praça central de Marrakech, onde fica o famoso mercado, numa vista noturna.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Quem não sabe espanhol também consegue pechinchar tranquilamente no mercado de Marrakech. Os vendedores têm suas calculadoras para que ambas as partes apresentem aí suas propostas e contra-propostas. Os números são tão mais importantes que o idioma que juro que vi uma amiga negociando preço nesse mercado com um vendedor... mudo!

Ricardo dá o caminho das pedras:
Este vídeo dá uma boa ideia de Marrakech.
...

21 de julho de 2009

O chinês do mercadinho / El chino del mercadito

Sabe-se lá por quê, nove em cada dez padarias do Rio de Janeiro pertencem a um português. Em Madrid, o equivalente ao "português da padaria" é o "chinês do mercadinho".

A cidade está cheia de mercadinhos com placas em que se leem alimentación e frutos secos. São estabelecimentos meio precários, não muito higiênicos e pouco iluminados que vendem de salsichão a papel higiênico, de frutos do mar enlatados a envelope de carta, de vinho tinto a cigarro.

A vantagem é que ficam abertos depois que os supermercados fecham.

No caixa, invariavelmente, está o dono do estabelecimento: um chinês, acompanhado de sua mulher chinesa e de seus filhos chineses, todos assistindo a algum filme chinês bizarro num laptop chinês ligado ao lado da caixa registradora.

Achar umas fatias de queijo no refrigerador do mercadinho, por exemplo, é tarefa complicada. Para começar, é um refrigerador vertical, daqueles de expor refrigerante e cerveja no supermercado. E o pacote de queijo está escondido nessas prateleiras frias (mas não muito) no meio de salames, picolés, presuntos, iogurtes e sanduíches prontos.

Os chinos, como são carinhosamente (sic) chamados (tanto os donos como os mercadinhos), são a salvação quando bate aquela fome às 11 da noite. Ou quando as bebidas acabam bem no meio da festa no fim de semana.

Os chineses dos mercadinhos se esforçam para ser simpáticos. Assim que alguém entra no local, o dono dá as boas-vindas com um hola mecânico. O melhor é quando ele diz o valor a ser pago: Cuatlo eulos con cualenta céntimos.

Chino é chino em qualquer lugar do mundo.

Ricardo põe legenda na foto:
Um dos milhares de chinos de Madrid.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
O chino não vai querer te vender bebida alcoólica às 10 da noite. É que a venda desse tipo de produto está proibida fora de bares e restaurantes quando cai a noite. Mas se você insistir um pouco, o chino acaba te vendendo a bebida. Mas ele vai te pedir que, por favor, esconda a garrafa dentro da mochila por causa dos policiais que garantem a ordem pública nas ruas.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Os chineses também são vendedores ambulantes de cerveja na noite madrilenha.
...

7 de julho de 2009

Estación en curva

O jornal onde eu trabalho é um dos mais influentes da Espanha, mas não tem nenhum carro para levar os repórteres às pautas.

Explico.

O sistema de transporte público de Madrid é tão eficiente que desencoraja o uso dos carros. Há duas estações de metrô perto do jornal. E o metrô de Madrid leva a todos os cantos da cidade. Eu disse todos os cantos da cidade.

São quase 300 estações espalhadas pela região metropolitana. O Rio de Janeiro, uma cidade maior que Madrid, tem menos de 40 estações.

O metrô leva ao aeroporto de Barajas (são duas estações lá dentro), aos terminais rodoviários, às estações de trem, ao estádio do Real Madrid, ao Parque do Retiro, à Gran Vía, ao Museu do Prado e aonde mais você quiser.

Está pensando em estações escuras como as de Roma? Linhas confusas como as de Paris? Ou vagões emporcalhados como os de Nova York? Nada a ver.

As estações são bem iluminadas e os trens estão sempre limpinhos. Ninguém fica andando para lá e para cá como barata tonta porque as estações estão muito bem sinalizadas. Cada linha tem uma cor e um número.

A passagem do metrô de Madrid é uma das mais baratas da Europa. Um euro.

Além disso, os trens passam a cada três ou cinco minutos. O serviço funciona até a uma e meia da manhã. E um simpático casal de dubladores (essa é a profissão original deles) de voz empostada anuncia a próxima estación.

Assim como em Londres, eles alertam para o espaço entre o vagão e a plataforma. Em vez do clássico "Mind the gap", a espanhola do metrô --muito mais dramática-- exclama:

"Atención: estación en curva. Al salir, tengan cuidado para no introducir el pie entre coche y andén".

Exagero. O metrô de Madrid é tão bom que o espaço entre o vagão e a plataforma (o tal buraco onde você pode desatentamente enfiar o pé) não tem mais que uns 15 centímetros. Ninguém em sã consciência cai ali dentro.



Ricardo põe legenda na foto e no vídeo:
Na foto, o nome que deu origem a este blog. O vídeo mostra a chegada à mítica Diego de León, que me deixa quase na porta de casa. Preste atenção ao diálogo entre o locutor e a locutora ao anunciar a próxima estación e a correspondencia con.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Se você é um imigrante ilegal, é melhor evitar estações movimentadas, como a Avenida de América. Na saída costumam estar policiais ávidos por clandestinos desavisados.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Este é o mapa que se distribui gratuitamente em todas as estações do metrô. Dou uma tapa (não um tapa) a quem achar a idolatrada Diego de León nesse mundo ferroviário.
...

5 de julho de 2009

Cuidado, filme dublado / Atención, película doblada

Que tal ir ao cinema ver o último blockbuster americano? Cuidado, porque é quase certo que o filme vai estar dublado.

Dublado? Mas é um drama que pode ganhar o Oscar, não um desenho da Disney para crianças...

Não importa. O filme vai estar dublado.

Se quiser ver no idioma original, com legendas, vai ter que procurar um cinema alternativo, circuito cult, gente moderna.

Os espanhóis simplesmente não estão acostumados às legendas. Não gostam de ver a história num idioma que não entendem e ao mesmo tempo ler as falas traduzidas para o espanhol. Não gostam, não conseguem ou não querem.

Nos anos 40, a ditadura do General Francisco Franco baixou uma lei que tornava a dublagem dos filmes estrangeiros obrigatória. Era para conservar a pureza do espanhol? Para nada. Era uma forma bastante eficaz de controlar o conteúdo que chegava do exterior.

A ditadura franquista não gostava de nada que remetesse à democracia e à liberdade ou que ameaçasse a moral católica e os bons costumes.

O exemplo mais clássico (ou trágico ou cômico) é "Mogambo", de 1953, dirigido por John Ford e estrelado por Clark Gable e Grace Kelly. No filme que o mundo inteiro viu, a história gira em torno de uma mulher que trai o marido num safári africano. No filme que só a Espanha viu, as falas transformaram marido e mulher em... irmãos! Assim, nunca houve adultério na versão espanhola. Nada de maus exemplos neste país.

Os nomes de todos os filmes também são traduzidos. Isso, porém, vem de uma tradição mais antiga. Aqui, a rainha Elizabeth da Inglaterra é conhecida como Isabel. O príncipe Charles, Carlos. E os dois filhos dele, os príncipes William e Harry, Guillermo e Enrique.

O pensador alemão Karl Marx é Carlos Marx. A cidade belga de Antuérpia se chama Amberes. Anne Frank, a do diário, virou Ana Frank. E a banda U2, atenção, ganhou o nome de u dos.

Ricardo põe legenda na foto:
Até o Wolverine foi espanholizado.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Como têm tudo mastigadinho na língua materna, os espanhóis não se preocupam em aprender outros idiomas. Aqui, ao contrário do Brasil, não se encontra uma escola de inglês em cada esquina.

Ricardo dá o caminho das pedras:
¿Quién quiere ser millonario? foi o primeiro filme que vi na Espanha. Na entrada do cinema não havia nenhum aviso de que estava dublado. Foi estranho ouvir um menininho indiano gritando coño.
...

1 de julho de 2009

Sol de rachar a cabeça / Cómo hace calor en esta ciudad

Numa das inesquecíveis lições de espanhol no CCAA, uma das personagens exclama: ¡Cómo hace frío en esta ciudad!

Em Madrid, nesta época do ano, é o contrário. ¡Cómo hace calor en esta ciudad!

Na capital espanhola ou faz frio de congelar as bochechas ou calor de derreter os neurônios. Quando o inverno inclemente vai embora, é imediatamente substituído pelo verão inclemente.

Dias agradáveis, sol morno, brisa fresca, cheiro de orvalho... nem pensar. Não há término medio.

Pela manhã faz calor. À tarde faz calor. De noite faz calor. Na madrugada faz calor.

Andar na rua é um inferno. O sol pesado joga todos os seus raios UV na cabeça dos transeuntes. E eles (os raios, não os transeuntes) queimam.

Para piorar, Madrid está bem no centro da Península Ibérica, longe do Mar Mediterrâneo, do Mar Cantábrico e do Oceano Atlântico. Umidade, só na pia do banheiro e da cozinha. Os poucos ventos que sopram aqui são secos. E quentes. A sensação térmica é de deserto. Uma verdadeira estufa.

Os madrilenhos dizem que os dias de verão são bochornosos. Bochorno é o aire caliente y molesto que se levanta en el estío.

As senhorinhas, outrora com casacos de pele cheirando a mofo, nesta época do ano passeiam pelas ruas com sombrinhas protegendo a cabeça e leques refrescando o rosto.

Ricardo põe legenda na foto:
Essa foto foi tirada hoje --acredite-- às dez horas da noite.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Dormir com as janelas abertas ajuda. Um pouco.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Como faz São Paulo, Madrid também improvisa suas praias.
...