11 de maio de 2009

Sevilha / Sevilla

Sevilha é a mais espanhola das cidades. Tudo o que se imagina da Espanha está concentrado em estado bruto na capital da Andaluzia.

Perdoem-me o clichê à quarta potência, mas Sevilha respira flamenco, respira tapas, respira touradas e respira mundo árabe.

Ir a uma apresentação de flamenco em Sevilha é obrigatório. Em cima do tablao de madeira, a bailaora sapateia forte com seus saltos e bate palmas ao som de guitarras e vozes chorosas (guitarra em espanhol é violão em português).

Só para situar: quando digo guitarras e vozes chorosas, me refiro a algo no estilo Gipsy Kings...

Turista que é turista, queixam-se os espanhóis, não sabe se comportar nem na tourada nem no flamenco. Por isso, a bailaora está acostumada a pedir silêncio repetidas vezes antes de começar sua exibição. Apesar do estresse inicial da estrela, o espetáculo é bonito.



Se puder assistir ao show de flamenco saboreando as legítimas tapas espanholas, melhor ainda. As tapas são os tira-gostos que acompanham a cerveja, o vinho ou o tinto de verano. São porções individuais de paella, croquetes, miúdos de galinha, queijo ou o inconfundível jamón ibérico, que é o presunto mais consumido pelos espanhóis.

As tapas são tão importantes na Espanha que se criou o verbo tapear. Também existe a expressão salir de tapas.

O estilo mourisco está em todos os cantos de Sevilha, com seus tijolos aparentes, seus arcos, colunas e abóbadas, seus azulejos, suas inscrições em árabe... O melhor exemplo é o Alcázar, um impressionante palácio construído pelos muçulmanos e depois adotado e adaptado pelos reis espanhóis.

E a praça de touros tem lá suas características árabes.

Um pouco de história. Os muçulmanos invadiram a Península Ibérica no século 8. A Reconquista, por parte dos reis católicos, foi na passagem do século 15 para o 16. Os muçulmanos acabaram sendo expulsos da Europa algumas décadas mais tarde.

A mais espanhola das cidades é também uma das mais turísticas. Nas ruas se escutam inglês, francês, italiano, alemão, português... As lojinhas de suvenires estão sempre cheias.

Ricardo põe legenda na foto e no vídeo:
Na foto, a Giralda, que é a imponente torre da Catedral de Sevilha. No vídeo, a bailaora dança, sapateia, pula e roda a baiana. A estrela dançante está um pouquinho acima do peso, longe daquele perfil sevilhano esbelto, mas não decepciona em cima do tablao...

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Segundo Danuza Leão, antigamente as fatias de presunto eram colocadas sobre as jarras para impedir que caísse sujeira dentro do vinho. O presunto tapava as jarras de vinho. Daí vem a palavra tapa.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Para ver as fotos da viagem a Sevilha, clique aqui. E para ver as de Granada, localizada na mesma Andaluzia, o clique é aqui. Em Granada ficam os suntuosos palácios de La Alhambra.
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6 de maio de 2009

No fundo do poço / Tocando fondo

A crise econômica internacional acertou a Espanha com tudo. Perto de 4 milhões de pessoas, entre espanhóis e imigrantes, estão sem emprego. Isso representa mais de 15% da população de trabalhadores.

Quando cheguei, três meses atrás, a impressão que eu tinha pelas notícias dos jornais era que o país estava à beira do apocalipse, num desespero total, mais ou menos como o mundo de cegos contado por Saramago.

Com o tempo vi que, obviamente, as pessoas não estavam surtando nas ruas.

De qualquer maneira, existe sim uma crise que afeta —e muito— a vida dos espanhóis.

Nas empresas, inclusive no jornal onde eu trabalho, o que mais se vê na hora do almoço são os Tupperwares. As pessoas estão deixando de almoçar fora para comer no trabalho o almoço mais barato feito em casa. Um dos "presentes" do jornal ABC aos seus leitores é justamente um jogo de Tupperwares.

Ainda na alimentação, os espanhóis estão trocando os restaurantes pelos bares de tapas (os tradicionais petiscos espanhóis), que são bem mais baratos. E os restaurantes fazem todo tipo de promoção para atrair a clientela, como a tapa que vem grátis na compra de uma cerveja.

Redes de restaurante criaram o "menu anticrise", com preços mais baixos que os habituais. Outra rede dá comida de graça às quartas-feiras para os desempregados. Basta apresentar o cartão do Seguro Desemprego.

Na mesma linha, a Telefónica oferece descontos de 20 euros na conta de telefone dos desempregados e clubes de futebol dão entradas grátis para as partidas.

Até as tradicionais touradas estão ameaçadas. Os patrocinadores (privados e públicos) não têm mais tanto dinheiro para investir e o público reduz seus gastos com lazer. Várias corridas de toros já foram canceladas.

A lista pública dos empregos disponíveis, aqueles que os espanhóis não costumam aceitar e vão parar nas mãos dos estrangeiros imigrantes —como garçom, tosador e jardineiro—, está cada vez mais curta. Os espanhóis, sem opção, agora estão se vendo obrigados a aceitar o que antes viam como subemprego.

Uma informaçao tragicômica: aumentou nos últimos meses o número de denúncias contra empresas por uso de software pirata. Acredita-se que as denúncias estejam sendo apresentadas por empregados demitidos, como vingança contra os ex-patrões.

Ricardo põe legenda na foto:
Um restaurante se revolta contra o disco furado de quem só fala em crise.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Ainda bem que sou um mero jornalista visitante e não podem me demitir. Os passaralhos estão correndo soltos nas redações espanholas.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Se você não sabe o que é passaralho, clique aqui.
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5 de maio de 2009

Madrid 2016 / Los JJOO

Madrid briga com Tóquio, Chicago e Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016. Os governantes e a imprensa da Espanha estão numa campanha de marketing feroz...

Cartazes com o logo de Madrid 2016 estão espalhados pelo metrô e pelos postes do centro. Os jornais volta e meia escrevem sobre a união entre Zapatero (presidente de governo da Espanha), Aguirre (governadora da Comunidade de Madrid) e Gallardón (prefeito de Madrid) para que o sonho olimpíco se realize.

Essa campanha se intensificou nos últimos dias porque os julgadores do Comitê Olímpico Internacional acabam de chegar à capital da Espanha. Estão avaliando se a cidade tem as condições necessárias para sediar um evento tão importante e complexo.

A imprensa faz mais estardalhaço que o recomendado. Há uma semana está em contagem regressiva para a chegada dos auditores do COI. O logo de Madrid 2016 agora está nas primeiras páginas dos jornais todo santo dia.

Com os técnicos do COI finalmente na cidade, os jornais dedicam páginas e mais páginas para contar com fartura de detalhes cada passo deles. E também os esforços dos madrilenhos para conquistar a simpatia dos estrangeiros.

No meio dessa avalanche informativa, não se fala dos valores astronômicos gastos nesses preparativos, não se fala da crise econômica que reduz a munição do governo e da iniciativa privada, não se fala que a visita do COI é protocolar e que a decisão final é mais política e fruto de lobby do que qualquer outra coisa...

Um dos mais influentes jornais noticiou assim a chegada do COI à cidade:

"Los 13 miembros del Comité Olímpico Internacional ya están en la primavera espectacular de Madrid. El primer y único compromiso del día, el cóctel de recepción organizado por los Príncipes de Asturias en su propio hotel, el Villa Magna. La cita, a la hora taurina de las cinco de la tarde; en lo alto, un sol agradecido y, para cerrar el círculo, un cuadro flamenco."

Volte a ler o parágrafo acima, mas prestando bastante atenção aos adjetivos.

Ricardo põe legenda na foto:
Anúncio no metrô vende o peixe olímpico madrilenho.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
As Olimpíadas de Barcelona foram anteontem. É muito difícil que esse evento volte a ser realizado na Espanha depois de tão pouco tempo.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Eu também entrei no espírito oba-oba. Fiz uma reportagem para noticiar a doação de uma vaca da Cow Parade à entidade organizadora da candidatura de Madrid.
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Ainda a gripe do porco / Y sigue la gripe porcina

Correção do post abaixo. Sim, vi pessoas aqui na Espanha usando máscaras contra a gripe porcina. Várias. Foi no aeroporto de Madrid, no feriado do Dia do Trabalho.

Pura ignorância.

Acabei de ficar sabendo, graças à entrevista do secretário da Saúde de São Paulo no "Roda Viva", que a máscara não protege quem a usa.

Na realidade, deve ser usada apenas por quem já está doente, pois impede que essa pessoa transmita o vírus, pelo espirro ou pela saliva, a quem está saudável.

De nada adianta a pessoa saudável proteger a boca e o nariz com uma máscara. Só se a máscara lhe cobrisse o corpo inteiro, no estilo homem-bolha.

É por isso que quem usa máscara na sala de cirurgia é o médico, e nunca o operado.

Faz sentido.
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29 de abril de 2009

A porca torce o rabo / La gripe porcina

As autoridades sanitárias já contam dez pessoas infectadas pela gripe do porco na Espanha. Apesar disso, não vejo sinais de pânico ou comoção social nas ruas de Madrid.

Aqui em casa, por outro lado, os nervos estão à flor da pele. Divido apartamento com Randall, um menino da Costa Rica, e com Nadia e Tina, duas meninas... do México! O México, como já foi amplamente divulgado, é o epicentro do terremoto suíno.

Hipocondríaco e preocupado, pensei em criar uma zona de quarentena na área de serviço, em tornar obrigatório o uso de máscaras Michael Jackson dentro de casa, em manter as janelas abertas para sempre...

Porém mais estava por vir. Acabam de chegar a este apartamento para uma temporada de três semanas os pais de Nadia. Provenientes da Cidade do México. Depois de horas dividindo o ar do avião com centenas de outros mexicanos.

Acabo de entreouvir no quarto ao lado um dos membros da comunidade mexicana dar uma discreta tossida...

Ricardo põe legenda na foto:
Os jornais daqui não falam de outra coisa.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
A gripe do porco se conhece em espanhol como gripe porcina, como a viúva da novela.

Ricardo dá o caminho das pedras:
A Organização Mundial da Saúde divulga todos os dias um boletim sobre a situação internacional da gripe do porco.
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27 de abril de 2009

O Equador é aqui / Ecuador es aquí

A votação é no outro lado do Atlântico, mas Madrid está tomada de cartazes do presidente do Equador, Rafael Correa, candidato à reeleição.

Explico. Os equatorianos que moram fora do país também votam nas eleições nacionais. E a Espanha é vista com muito interesse pelos candidatos porque aqui vive uma multidão de cerca de 700 mil imigrantes equatorianos.

A fuga em massa começou no fim dos anos 90, quando o Equador estava mergulhado na pior crise econômica de sua história e a cada semana um presidente novo respondia pelo país. Para tentar sair do buraco, o Equador dolarizou sua economia.

Com o desemprego nas alturas, os pobres do país decidiram migrar para outras partes do mundo. Enquanto 13 milhões de equatorianos vivem no território nacional, outros 3 milhões se encontram espalhados pelo planeta. Estão principalmente na Espanha, até pouco tempo atrás (até chegar a tal crise) o Eldorado dos latino-americanos. Aqui são a segunda maior comunidade estrangeira, atrás só dos romenos.

Com o desemprego na Espanha agora nas alturas (mais de 15% da população economicamente ativa), os imigrantes são os que mais sofrem, principalmente os ilegais. Muitos estão tomando o caminho de volta para casa.

Parêntese. Argentinos são bem vistos aqui, uruguaios também, mexicanos idem. Brasileiros, viva a nossa pátria amada, são igualmente recebidos com simpatia. Mas os equatorianos, esses não são bem-vindos. São os que mais sofrem preconceito.

A história é conhecida entre os colegas do programa Balboa. Telefona um equatoriano em resposta a um anúncio de aluga-se apartamento. Não, o apartamento já está alugado. Liga em seguida um argentino em resposta ao mesmíssimo anúncio. Claro, podemos marcar de visitar o apartamento.

Nos dias anteriores à votação de domingo, os candidatos a deputado (o Equador tem a figura do "deputado estrangeiro", que representa os compatriotas que vivem em outros países) fizeram debates públicos em Madrid, participaram de programas de rádio, distribuíram panfletos etc.

Rafael Correa, claro, foi reeleito.

Ricardo põe legenda na foto:
Publicidade eleitoral do presidente Rafael Correa no metrô de Madrid. Ele abraça sua candidata a "deputada estrangeira" para a Europa, Dora Aguirre.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Dora Aguirre me contou que "é necessário melhorar a acolhida dos conterrâneos que voltam para o Equador: eles precisam de ajuda na busca de emprego, menos burocracia na revalidação dos estudos feitos no exterior e facilidade na obtenção de empréstimos".

Ricardo dá o caminho das pedras:
Uma modesta colaboração minha para a imprensa brasileira neste momento tão decisivo para o mundo andino.
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23 de abril de 2009

A cidade da cultura / Mucha cultura

Madrid, como toda capital do velho continente, é uma cidade em que se respira cultura.

Já que a lista é longa, enumero apenas um pouco do que vi nestes últimos três meses. O gigantesco Guernica, de Picasso, é a atração maior do Museu Reina Sofía. As pinturas de Goya e Velázquez enchem meio Museu do Prado. Estiveram expostas pouco atrás em plena rua uma variedade de Rodins, incluindo seu célebre Pensador.

No cinema, antes do lançamento internacional, assisti ao último filme de Pedro Almodóvar, Los Abrazos Rotos. Há pouco tempo, um centro cultural projetou praticamente todas as produções de Almodóvar. Vi, por fim, La Mala Educación.

Posso ainda citar o Museu Arqueológico, o Museu da Cidade, o Museu do Traje, uma exposição de fotos do Dalai Lama, igrejas muito antigas, estátuas espalhadas por toda a cidade (do dom Quixote aos reis montados em seus cavalos), edifícios históricos, a praça de touros, o Palácio Real...

De todas essas expressões artísticas, porém, nada se compara à música que se ouve em Madrid. Mais que a pintura, que a arquitetura, que a história e que o cinema... A música aqui é, por excelência, "a criação com valores estéticos" que mais "sintetizam as emoções, a história, os sentimentos e a cultura" do homem.

Não exagero.

Entro num supermercado e lá toca um hit da dupla Andy & Lucas. Passando pela porta do bar, ouço Conchita. Na loja de roupas, toca Jennifer López em espanhol. No restaurante vegetariano, um sucesso antigo de Ricky Martin.

Eis, pois, o paraíso!

Acabo de chegar do show de Ricardo Arjona, um cantor guatemalteco adorado dos Estados Unidos à Argentina ("Señora de las cuatro décadas: permítame descubrir qué hay detras de esos hilos de plata y esa grasa abdominal que los aeróbicos no saben quitar").

Se eu tivesse de escrever sobre o espetáculo, desafiaria as rimas com a seguinte descrição: emocionante, impressionante e cativante.



Quando veria algo assim em São Paulo?

Depois de amanhã vou ao show de Laura Pausini, uma cantora italiana que... dispensa apresentações ("Se fue, se fue... Me quedó sólo su veneno. Se fue, se fue... Y mi amor se cubrió de hielo").

Enquanto meus colegas de curso se planejam para Madonna e U2, já estou de olho em Luís Fonsi, um cantor portorriquenho que se apresenta aqui dentro de algumas semanas. E cruzo os dedos para que haja apresentações de Shakira, Enrique Iglesias, Alex Ubago...

Porque apenas a arte nutre a alma.

Ricardo põe legenda na foto e no vídeo:
O cartaz anuncia o show de Ricardo Arjona em Madrid. Como as entradas para o Palácio de los Deportes se esgotaram em questão de dias, os organizadores decidiram realizar um segundo show na capital espanhola. No vídeo, o recital propriamente dito.

Ricardo dá o caminho das pedras: Num verdadeiro esforço de reportagem, consegui uma entrevista exclusiva com Ricardo Arjona. "Cadê o meu xará?", ele perguntou à assessora de imprensa no momento em que eu entrava na sala.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Agora preciso conseguir uma entrevista com Laura Pausini. Custe o que custar.
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6 de abril de 2009

Um dia de touradas / En las corridas

Domingo é dia de touradas em Las Ventas.

A plaza de toros de Las Ventas lembra um estádio de futebol: arquibancadas para a plebe e camarotes para os VIPs, vendedores de bebidas para lá e para cá, velhos que enfrentam o assento duro alugando almofadinhas, gritos de ânimo da torcida etc. etc. etc. Porém, um estádio com muita classe, construído em 1931 no mais refinado estilo mourisco.

Soa a corneta, abrem-se os portões e entra o primeiro touro. A multidão vai ao delírio. O touro é preto, tem um par de chifres afiados e parece bastante nervoso.

A corrida começa com uns quatro aprendizes de toureiro provocando o bicho com suas bandeirolas rosadas. Quando o touro responde, eles não toureiam. Simplesmente fogem para trás de umas trincheiras de proteção estrategicamente posicionadas na arena.

Assim, correndo contra um e contra outro, o touro vai perdendo força. Depois, dois desses aprendizes de toureiro tratam de fincar umas espécies de ganchos nas costas do animal. O sangue começa a escorrer. Em certos momentos o animal pára e vira o pescoço como que tentando se livrar dos ganchos.

Mais uma corneta soa. E eis que entra um imponente toureiro montado num cavalo. O montador leva uma lança. A montaria leva uma armadura. E ainda bem que leva uma armadura, porque o touro vai com todos os seus chifres para cima do cavalo. Mais sangue: o touro leva uma lançada certeira no lombo.

Por fim, anunciado pelas mesmas cornetas, surge na arena o toureiro ídolo. Com seu indefectível uniforme colado ao corpo, uma sapatilha meiga nos pés, meia cor-de-rosa, detalhes dourados brilhantes por todo o traje, chapeuzinho napoleônico...



O touro, já combalido, continua furioso e investe contra a capa vermelha. O toureiro faz a festa. Olé! Num dado momento do espetáculo, o toureiro saca uma espada e a crava no animal. Com toda a força. Friamente. Uma presa fácil.

O touro, com a espada enterrada na região do pescoço, ainda avança com violência por alguns segundos, mas logo começa a perder os sentidos. Já está com a língua para fora, exaurido. Vomita sangue. E tomba quase sem vida.

Um dos aprendizes de toureiro avança sobre o animal estirado ao chão e, com a mesma espada, acaba com o resto de vida que sobra. No final, uns cavaleiros aparecem e suas montarias arrastam o touro abatido para fora da arena. A piscina de sangue que sobra é imediatamente coberta com terra.

Eis a glória humana!

Ricardo põe legenda na foto e no vídeo:
Na foto, um monumento aos toureiros e um pedacinho de Las Ventas. No vídeo, cena da corrida de ontem à tarde.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Bandido, o touro da novela, era feliz e não sabia. E, sim, os touros bravos fazem aquele movimento com as patas dianteiras, típico de desenho animado, antes de partir para o ataque.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Antes de ser abatido, o primeiro touro de ontem quase venceu seu algoz.
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3 de abril de 2009

O cheiro do inverno / Algo huele mal

Há alguns dias o inverno finalmente terminou e deu lugar à primavera, mas o frio volta de vez em quando. E é nas temperaturas baixas que as pessoas tiram seus casacos mais pesados do fundo do armário.

Problema. As pessoas sacam seus casacões do baú e os vestem do jeitinho que estão, sem lavar, limpar nem nada do gênero. O inverno não cheira bem.

E como é que eu sei disso? Pois usando o metrô!

Ao seu lado no vagão está sentada uma pessoas qualquer, e de repente aquele cheiro de bolor entra pelo nariz e quase te mata de ânsia de vômito. Ou então, pior ainda, sobe um odor de suor impregnado na roupa. E ainda há alguns com fragrância de bafo da manhã, cachorro molhado, bacon frito etc. etc. etc.

E o cheiro é proporcional à idade do usuário da roupa. Afinal, as chances de um senhor de 85 anos ter uma roupa guardada há 50 anos sem lavar são maiores do que as de um senhor de 60...

As senhoras de certa idade dão pulinhos de alegria com o frio. É a ocasião em que podem tirar da tumba suas melhores peles felpudas de marta ou chinchila e desfilar muito elegantes pela Gran Vía. Tudo muito politicamente incorreto.

Quando escrevi "senhoras de certa idade", quis dizer "múmias".

Ricardo põe legenda na foto:
Um par de velhinhas com seus abrigos na região de Hortaleza. Não me atrevi a cheirá-los. E muito menos a cheirá-las.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Por que automaticamente franzimos o nariz e fazemos cara de nojo quando dizemos coisas do tipo "fedor" e "cheiro ruim"?

Ricardo dá o caminho das pedras:
Nessas situações, meu amigo, o jeito é segurar a respiração e, se o fôlego acaba, tomar ar pela boca.
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1 de abril de 2009

Almoçando fora / Pues... a comer

Almoçar em Madrid é sempre uma aventura. Os restaurantes são muito parecidos por fora, mas a comida que servem pode ser tanto um banquete como uma gororoba. É preciso ter sorte.

Come-se muito no almoço. Os restaurantes invariavelmente oferecem o "menu do dia", que contém bebida, pão, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. O preço varia em média de 8 a 11 euros.

Pode-se escolher dentre três, quatro ou cinco opções de primeiro prato. As mais comuns são salada, paella e massa. Idem de segundo prato. É aí que estão as carnes.

É preciso ficar bem atento ao cardápio porque os espanhóis gostam de comer a tripa dos animais, carne com muita gordura, rabo de vaca e frango com a pele do bicho. E é bom perguntar o que acompanha a carne. Costumam ser batatas. Para quem está de dieta, uma salada pode vir no lugar.

Também bebe-se muito no almoço. A bebida do "menu do dia" pode ser uma água, um suco, um refrigerante ou um vinho. Não uma taça de vinho. Mas uma garrafa inteirinha de vinho tinto!

No final, pode-se escolher uma sobremesa. Assim como na comida, pode vir um manjar dos deuses ou um bolo de caixinha com alguma cobertura fajuta. Para quem está de dieta (acho que já falei isso), há a opção de pedir um café.

Esse é um dos motivos pelos quais os espanhóis têm direito a duas horas inteirinhas de almoço no meio do expediente. Almoçar é um ritual que requer tempo.

Ricardo põe legenda na foto:
O "menu do dia" na entrada de um restaurante perto do metrô San Bernardo.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Os cheesecakes (tartas de queso ou pasteles de queso) são o que há de melhor na sobremeseria espanhola.

Ricardo dá o caminho das pedras:
O Kaixo é uma taberna que fica perto do Sol, a zona mais turística de Madrid. O almoço é saborosíssimo.
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