1 de abril de 2009

Almoçando fora / Pues... a comer

Almoçar em Madrid é sempre uma aventura. Os restaurantes são muito parecidos por fora, mas a comida que servem pode ser tanto um banquete como uma gororoba. É preciso ter sorte.

Come-se muito no almoço. Os restaurantes invariavelmente oferecem o "menu do dia", que contém bebida, pão, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. O preço varia em média de 8 a 11 euros.

Pode-se escolher dentre três, quatro ou cinco opções de primeiro prato. As mais comuns são salada, paella e massa. Idem de segundo prato. É aí que estão as carnes.

É preciso ficar bem atento ao cardápio porque os espanhóis gostam de comer a tripa dos animais, carne com muita gordura, rabo de vaca e frango com a pele do bicho. E é bom perguntar o que acompanha a carne. Costumam ser batatas. Para quem está de dieta, uma salada pode vir no lugar.

Também bebe-se muito no almoço. A bebida do "menu do dia" pode ser uma água, um suco, um refrigerante ou um vinho. Não uma taça de vinho. Mas uma garrafa inteirinha de vinho tinto!

No final, pode-se escolher uma sobremesa. Assim como na comida, pode vir um manjar dos deuses ou um bolo de caixinha com alguma cobertura fajuta. Para quem está de dieta (acho que já falei isso), há a opção de pedir um café.

Esse é um dos motivos pelos quais os espanhóis têm direito a duas horas inteirinhas de almoço no meio do expediente. Almoçar é um ritual que requer tempo.

Ricardo põe legenda na foto:
O "menu do dia" na entrada de um restaurante perto do metrô San Bernardo.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Os cheesecakes (tartas de queso ou pasteles de queso) são o que há de melhor na sobremeseria espanhola.

Ricardo dá o caminho das pedras:
O Kaixo é uma taberna que fica perto do Sol, a zona mais turística de Madrid. O almoço é saborosíssimo.
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31 de março de 2009

Rabugento / Malhumorado

Entro no primeiro restaurante. A parede está coberta de rabiscos e escritos a giz. Saco, minha mão fica áspera com giz. Chega o suco de laranja. Saco, é suco em garrafa, a garrafa é minúscula e o copo está cheio de gelo. Pode tirar o gelo, por gentileza? Como primeiro prato, quero um arroz à cubana. O ovo com a gema dura, por favor. Saco, a gema vem mole. Repito: com a gema dura. E lá se vai o prato de volta para a cozinha.

Na mesa ao lado, um senhor faz seu almoço sozinho. Saco, para que tanto barulho para comer? Começa a fazer frio e é preciso vestir o casaco. Saco, a gripe está indo embora e uma corrente gelada pode ser fatal. Numa mesa na frente, um homem de meia idade demais adiciona água ao seu vinho tinto. Saco, ninguém merece essa cena. A mesma pessoa chama a garçonete com a voz baixa. Ela não atende. Saco, a pessoa dá um sorriso sem graça como se estivesse sendo observada por todo mundo.

Chega o segundo prato, uma carne de novilho com fiapos que ficam presos entre os dentes. Saco, vou ficar com carne entre os dentes. Em outra mesa, o cliente acende um cigarro. Saco, a fumaça vem direto na minha cara. A garçonete diz que posso escolher entre sobremesa e café. Saco, esqueço meu auto-compromisso anti-açúcar e peço sobremesa. Vamos adiantar as coisas: a sobremesa e a conta, por favor. Saco, a conta não chega nunca. O jeito é pagar direto no caixa. Saco, a garçonete aparece com a conta no meio do caminho.

Saco, não recomendo esse restaurante.

Ricardo põe legenda na foto:
O restaurante é de comida cubana e fica perto do metrô Bilbao. Não sei o nome.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Ovo cru, conforme um alerta emitido recentemente pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, contém salmonela. Daí o cuidado com gemas moles.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Na dúvida, o mais seguro é comer em algum VIP's, uma rede de restaurantes com comida sempre boa que se encontra em qualquer esquina.
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30 de março de 2009

Manipulação na esquina / El sesgo español

Os jornais na Espanha tomam partido sem pudor. Imparcialidade zero. Não me refiro aos editoriais, lugares livres para que a publicação torne público o que pensa, deseja ou repudia. Me refiro às reportagens, que pelo menos na teoria devem ser objetivas e neutras.

Apesar de o acontecimento ser um só, no dia seguinte cada jornal mostra a realidade que mais lhe convém. E isso, convenhamos, é coisa fácil.

Ouve-se só um lado da história, ignora-se a versão da outra parte, redige-se uma opinião de modo que soe como verdade universal, enche-se o texto de adjetivos e juízos de valor, conta-se só uma parte do fato... E pronto. Eis aí um tendencioso prato de notícias. O molho é político e bem picante.

Se o jornal é anti-Zapatero, nele só se lerão ataques diretos e indiretos ao governo e elogios rasgados à oposição. E vice-versa. Se o jornal é contra o aborto, só noticiará que essa prática é criminosa e se terá a impressão de que a Espanha pede a uma só voz a "defesa da vida". E vice-versa.

Uma notícia importante nos jornais de hoje foram justamente os protestos contra a mudança na lei do aborto.

Num extremo, o Público escondeu o protesto numa chamada minúscula no pé da primeira página. No meio termo, o El País e o El Mundo deram uma foto e certo destaque. No outro extremo, o ABC e o La Razón publicaram fotos gigantescas dos protestos na primeira página.

A seguir, o que eles disseram:

Público
Protesto: Perde fôlego a mobilização católica contra o aborto.

El País
Milhares de pessoas pedem em toda a Espanha que se proíba o aborto.

El Mundo
Dezenas de milhares de pessoas manifestam contra o aborto.

ABC
Um clamor pela vida toma conta das ruas de toda a Espanha.

La Razón
Uma onda vermelha em defesa da vida e contra o aborto.

Espanhol que é espanhol sai da banca sabendo que a publicação embaixo do braço vai dizer exatamente aquilo que ele pensa.

Recentemente, o New York Times publicou um artigo em que, com muito acerto, disse que "existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas".

E assim concluiu: "Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos".

Ricardo põe legenda na foto:
Nas fotos da capa, o La Razón e o ABC deixam claro que são inflexivelmente contra o aborto.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
O La Razón tem uma editoria diária de religião.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Conheça neste link os principais jornais da Espanha.
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28 de março de 2009

Emoção em Lisboa / Emoción en Lisboa

Caminhar pela zona antiga de Lisboa é como folhear os livros de história da época do colégio.

Sobre um imenso pedestal na Praça do Rossio ainda governa o rei dom Pedro IV, o mesmo imperador dom Pedro I do Brasil.

Perto dali, no Largo do Chiado, uma estátua mostra Fernando Pessoa sentado em seu café favorito.

A praça ao lado presta uma justa homenagem a Luís Vaz de Camões.

O Elevador de Santa Justa, a Rua Augusta, o Arco Triunfal e seu mármore, a Praça do Comércio e -finalmente- o Rio Tejo. Imponente, majestoso, cheio de vida. Reis passam e primeiros-ministros passam, mas o velho Tejo continua.

Calçadas de bom gosto pavimentadas com pedras portugueses. Praças de concreto, ainda assim elegantes, com uma estátua no centro. Edifícios ao estilo pombalino. O casario com belas fachadas de azulejo.

A cidade é portuguesa, mas dá a curiosa sensação de que também nos pertence. Tudo muito diferente e ao mesmo tempo tão familiar. Assim, sem esforço, Lisboa emociona.

Ricardo põe legenda na foto:
O Arco Triunfal liga a Baixa à Praça do Comércio e oferece a melhor vista do Rio Tejo.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
A Baixa é um microbairro planejado no centro antigo de Lisboa. Foi construída pelo Marquês de Pombal numa zona baixa, plana e segura depois de o resto da cidade ter sido arrasado em 1755 pelo Grande Terremoto.

Ricardo dá o caminho das pedras:
As fotos da viagem a Lisboa estão neste álbum.
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24 de março de 2009

As quatro estações / Las cuatro estaciones

Na Espanha, as estações do ano são muito bem marcadas. Calor é calor, frio é frio, pão é pão e queijo é queijo. Cheguei em fevereiro, mês de liquidações e de pleno de inverno, com a neve caindo e os termômetros na casa dos dois, três graus.

Quem não tem roupa apropriada para o gelo, como eu, deve seguir a dica da Bibiana e adotar o visual cebola, ir colocando casaco em cima de casaco, em camadas. Um par de luvas vai bem e um cachecol idem.

Também é importante ter hidratante, coisa que eu achava frescura até ver a pele da minha própria mão passar pelas seguintes etapas: fica áspera, depois começa a se esfarelar feito giz, em seguida fica vermelha e por fim está em carne viva. Escama não dá!

Eu tinha um cachecol quando criança, um presente da vovó, mas não gostava porque pinicava o pescoço. Mas aqui não teve jeito, comprei um na promoção. Ou melhor, três porque a promoção estava boa demais.

No começo, inexperiente, girava o cachecol de qualquer jeio em volta do pescoço, bem desajeitado. Na saída de uma das aulas, fiquei de olho no colega chileno e aprendi como se faz o nó. Fácil, fácil.

Já estamos na primavera. O pólen da nova estação não fez bem a dois colegas da América Central, que se viram no meio de um ataque de alergia primaveril, o dia inteiro espirrando. Eu também não passei invicto pela mudança de estação. Ontem à tarde a garganta deu sinais de revolta. À noite já estava fechada. A primavera tem seus dias gelados. Hoje tive de sair com cachecol no pescoço. Ao estilo chileno.

Ricardo conta ao pé do ouvido:
O inventor da calefação merece um Nobel. Ou um Oscar. Bendita seja essa pessoa!

Ricardo põe legenda na foto:
Publicidade de passagens de ônibus numa estação de metrô de Madrid, muito provavelmente a Diego de León que dá nome a este blog.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Antes de marcar viagem é fundamental olhar a previsão do tempo.
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18 de março de 2009

Rúlio / Julio

Um dos jornais ultraconservadores aqui de Madrid publicou ontem com destaque que o rei Juan Carlos I é "a imagem do país no mundo", segundo uma pesquisa do Foro de Marcas Renombradas de España.

A lista é interessante.

Logo em seguida aparecem Fernando Alonso, Pedro Almodóvar, Penélope Cruz, Antonio Banderas, Zapatero, Julio Iglesias, Raúl (Real Madrid), Rafael Nadal, Pablo Picaso, Ferrán Adrià (chef de cozinha), Plácido Domingo e SM Reina Sofía.

Julio Iglesias (capricho na pronúncia: Rúlio Iglêssias) me chamou a atenção. Por razões óbvias. E logo em seguida me dei conta de que em todas estas semanas não ouvi nem sequer o nome Rúlio, muito menos uma música no rádio.

Confirmei essa impressão com a prova dos nove. Joguei o nome do rei na internet. O jornal "El País" faz 77 referências. A "Folha", 120!

Alguma coisa acontece. Julio, mais que para consumo interno, é um produto de exportação. Mais ou menos como acontece no Brasil com Alexandre Pires e Paulo Coelho. Para nossa sorte.

Neste exato momento Julio Iglesias está numa concorridíssima turnê açucarada pelo Brasil: Sorocaba, São Paulo, Bauru, Rio de Janeiro, Ponta Grossa, Curitiba, Cuiabá, Campo Grande e Araçatuba.

Só lugar de categoria!

Ricardo conta ao pé do ouvido:
Julio Iglesias já foi goleiro do Real Madrid. Vai que é tua, Rúlio!

Ricardo põe legenda na foto:
CDs de Julio Iglesias à venda na filial Sol da loja de departamentos El Corte Inglés.

Ricardo dá o caminho das pedras:
Este é o site do cantor de "Manuela" e "Coração Apaixonado", em 21 idiomas. Atenção, poliglotas! Atenção, poliglotas bregas!
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